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VAGARES DE BOLO-REI

Este ano o bolo-rei foi por encomenda. Nunca em tais propósitos me aventurara sozinho. Faltou mesmo, apenas, deixar já as minhas instruções para o pão-de-ló – a Páscoa galopa para cá desabridamente.

São coisas destas que transformam as Festas num foguete. Não ando muito a par do assunto, mas admito ainda subsistam as rabanadas caseiras. E os mexidos e a aletria. Mas nada me admirava não fosse tudo já comprado no hipermercado, em boiões ou caixas de plástico, como o bolo-rei vai surgindo nas montras, selado por um código de barras, carregado de frutas cristalizadas e tão fraquinho de substância…

Por isso o Natal perde sabor e acelera. O Ano Novo é um golinho na flute (ninguém gosta de champanhe, mas lá terá de ser…), e, num segundo, os funcionários da Câmara Municipal vão cidade fora, tristemente desmontando as iluminações próprias da quadra. Próxima etapa: o Carnaval.

Mas, desta feita, reduzi na curva. O frio cortava, subsistia a ameaça do piso gelado, escorregadio… E para a passagem do Ano fui a uma confeitaria das antigas contratar, de véspera, a aquisição de um bolo-rei. É claro, a primeira dificuldade consistiu em localizar uma dessas abencerragens.

Lembro-as, sumindo umas atrás das outras. A Bezerra, a Mouzinho, a Vieira de Castro. Casas de outras eras, de outro apuro. E outras mais haveria, certamente. Quantas restarão? Vi-me obrigado a averiguações, escutei o parecer de famalicenses profundamente embrenhados e conhecedores do território.

Não valerá a pena identificar a oficina de arte a cuja porta fui bater. Basta dizer, é ali para os lados da Praça da Rainha D. Maria e não ocupa um espaço gigantesco, sobretudo se chove e a esplanada torna-se não utilizável.

Assim que entrei, tomei logo o pulso ao aviamento da confeitaria. Não se manifestavam alterações de fundo ao balcão mas, subindo os degraus do salão de chá, aquilo parecia um hospital de campanha. Uma mesa enorme, enfarinhada, ençucarada… As enfermeiras de verde, com gravata, quase umas voluntárias de Pyongyang. Por ali a fora, uma fila imensa de doentes – como eu – do bolo-rei.

Finalmente atendido, inteirei-me da terapia adequada – o bolo, cozinhado com o peso recomendável, a hora certa para o buscar no dia seguinte. Para nossa desgraça, as leis impostas pelo invasor europeu proíbem o brinde e a fava, não vá a gente engasgar ou espetar a garganta. Perderam-se, de uma penada, aqueles crachats que tão bem ficavam na lapela dos casacos!

Foi, todavia, o bastante para um jantar e um serão com outro gosto. Há já quantas vidas eu não degustava – palavra hoje de primeira ordem e serviço – uma massa assim, sobre o húmido, com frutos secos e uvas passas, dessa que não esfarela toda? E a perfumar esta reencarnação um cálice – e outro… – de vinho fino, esquecendo por momentos estarmos já praticamente na Páscoa, com um pé no Santo António, assim como quem mergulha de cabeça no Verão. Isto é: quase no Natal outra vez.

João Afonso Machado

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