Reis Campos, presidente da AICCOPN: «Setor da construção civil continua a crescer»

O setor da construção civil e imobiliário cresceu (2,5%) em tempo de pandemia; foi dos poucos setores que nunca encerrou, pese embora tenha sido afetado por causa das restrições à mobilidade. Há 98 mil empresas do setor em Portugal e não há registo de insolvências por causa da pandemia. Continua, contudo, a faltar mão de obra.

Cidade Hoje entrevistou Reis Campos, presidente da AICCOPN – Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas. Reis Campos quer que o Governo atenda aos problemas do setor neste Plano de Recuperação e Resiliência, a chamada “bazuca” europeia. «As obras públicas são fundamentais», salienta Reis Campos; já o investimento privado depende, sobretudo, da «confiança». Todos esperam o crescimento do turismo também para incremento da construção civil. Segundo o responsável da AICCOPN, «Famalicão cumpre neste setor aquilo que de melhor tem o país».

CIDADE HOJE – Em ano de pandemia, como correu para o setor da construção civil?

Reis Campos (RC) – Em janeiro do ano passado, o setor estava a começar um novo ciclo de consolidação de um conjunto de números que tinha em relação aos anos anteriores. Em investimento privado, o setor tinha crescido em número de habitações construídas, ou seja, mais 24 mil. Em obras públicas, vínhamos de um investimento promovido mas que não tinha reflexo nas obras adjudicadas e concursadas. Mas, o ano de 2020 começou com uma perspetiva muito boa para o setor da construção. Em fins de fevereiro, quando a pandemia assolou o país, o nosso setor esteve sempre ativo, em consonância com o que se passou em toda a Europa.

Não obstante, algumas obras que foram canceladas e outras adiadas, tivemos constrangimentos em termos de mobilidade dos trabalhadores e alguns casos de infeções; mas, contrariamente a outras atividades, tivemos um crescimento de 2,5%. Foi dos poucos setores que não necessitou de beneficiar do lay-off e de outros benefícios. A construção completou o ano de 2020 sem esse problema.

Em 2019 tínhamos falta de 70 mil trabalhadores, o setor tem ainda necessidade de mão de obra especializada. Terminou o ano com crescimento nas obras públicas, com crescimento no setor privado e entrou em 2021 numa situação melhor que qualquer outro tipo de atividade.

CH – Não há registo de empresas que tiveram que fechar ou colocar pessoas no desemprego?

RC – Em termos de falências de empresas de construção não temos conhecimento. Existem 98 mil empresas da construção civil e imobiliário e o que nos é informado é que a atividade estabilizou e, neste momento, continuam a precisar de mão de obra especializada.

CH – Qual a previsão para o ano de 2021?

RC – O setor privado, e falo da habitação e de outras obras, depende muito da confiança. Por exemplo, o turismo afeta fortemente o investimento dos promotores imobiliários; lembro que o nosso país foi, nos últimos anos, o melhor destino da Europa e nós beneficiámos dessa condição.

Nos últimos três meses tivemos problemas muito graves que nos afetaram a imagem, mas a situação está a tender para uma normalidade. Queremos, apenas, que o Governo tenha em mente que algumas coisas que tem feito não são positivas: é o caso dos Vistos Gold. É um instrumento que existe a nível europeu.

Em 2019, as transações de habitação e do imobiliário foram de 27,2 mil milhões de euros, dos quais 5,4 mil milhões foram para o exterior. É uma verba fundamental. Nós estávamos sempre a faturar 50 a 70 milhões de euros e agora vai descer, a partir do momento em que haja uma nova legislação dos Vistos Gold. Espero que o Governo mantenha algum bom senso para que isso não seja alterado.

Em termos de impostos, o setor tem estado muito afetado. O imobiliário era quase uma fonte inesgotável de impostos porque estava numa posição confortável. Deve haver um cuidado especial nisso.

As obras públicas são fundamentais. Neste momento, o volume é melhor do que no ano passado, mas muitas ainda não estão adjudicadas. Espero que o Governo faça a adjudicação dessas obras para que o setor tenha condições para enfrentar este grande desafio. É que em 2021/22, todas as obras têm que ser entregues, caso contrário vamos perder estes 13,9 mil milhões de euros que a Europa nos entrega de subvenções.

Queremos que a atividade se mantenha.

CH – O que lhe parece o Plano de Recuperação e Resiliência para o setor?

RC – É um plano que a Europa entendeu e que tem como objetivo resolver os problemas desta pandemia. Foi definida uma grelha de segmentos e dimensões para cada país. O nosso PRR, que foi apresentado em outubro e está neste momento em discussão pública, prevê três dimensões: a resiliência, o impacto climático e a dimensão digital.

O setor da construção e imobiliário integra mais a questão da resiliência, onde está a habitação, a mobilidade e a certificação energética. Estamos longe de atingir a eficiência energética de outros países, e tem tudo que ser feito até final do próximo ano, caso contrário perdemos esses fundos. Para isso, é fundamental a qualificação das empresas para poderem fazer a formação profissional dos seus trabalhadores.

Queremos que o Governo defina o conjunto das obras públicas, que calendarize e planeie corretamente todas estas obras para que as empresas se preparem para este grande desafio.

CH – A reabilitação urbana tem dado um grande contributo ao setor, é para manter?

RC – É um segmento de mercado que durante muito tempo esteve adormecido e que, fruto das últimas atividades, aparece hoje em alta, em linha com aquilo que a Europa pretende, que é a manutenção dos edifícios e dotá-los de eficiência energética. Os edifícios não podem ser um peso na sociedade. Hoje 75% das pessoas vivem nos centros das cidades, 60% da economia é dependente dos grandes centros.

Temos cerca de 3,5 milhões de edifícios e precisávamos de atacar a renovação de um milhão deles. Acredito que a reabilitação urbana vai continuar, o turismo vai ter uma importância grande nesta questão, razão pela qual as cidades hoje estão melhores e mais bonitas.

O nosso parque habitacional esteve muito degradado durante anos, fruto também das regras de arrendamento; mas hoje a reabilitação urbana adquiriu uma matriz que vai continuar na dinâmica da construção.

CH – Fala-se em falta de mão de obra qualificada no setor, como se ultrapassa essa questão?

RC – Temos dois centros de formação para a construção que são centros de excelência: o CICCOPN, na Maia, e CENFIC, em Lisboa. Na minha perspetiva, houve um desvirtuar daquilo que são os centros de formação, que deviam estar sob a tutela do Ministério do Trabalho. O Ministério da Educação criou nos centros uma vertente escolar e nós entendemos que o mais importante é que os nossos trabalhadores adquiram formações complementares e se formem no setor. A formação profissional é importante e vai ser fundamental neste desígnio do PRR. Não tínhamos gente, agora que o desemprego subiu pode ser que o setor da construção capte mais pessoas.

CH – Comparativamente com outros concelhos, qual é o peso da construção civil em Vila Nova de Famalicão?

RC – O concelho de Famalicão tem um peso económico muito importante, tem grandes empresas de construção e boas. Famalicão em termos de construção tem crescido porque tem muita indústria e isso atrai habitação. Em infraestruturas, Famalicão também não tem parado e isso é de louvar. Famalicão cumpre neste setor aquilo que de melhor tem o país.