Economia: a “regra de ouro” do poker que também se aplica aos mercados financeiros

Os paralelos que existem entre o poker e os mercados financeiros são muitos. Não é por acaso que Wall Street é muitas vezes descrito como um “casino” na comunicação social, nem por acaso que a atitude de um bom jogador de poker faz lembrar a de um investidor experiente. No entanto, os mercados financeiros e os jogos de sorte e azar são muitas vezes colocados em espectros sociais opostos, principalmente no contexto de uma discussão económica. A sua relação será, à partida, meramente circunstancial… Mas será que existe uma verdade para lá da evidência?
Segundo o investidor e autor norte-americano Aaron Brown, as realidades aparentemente distintas do poker e dos mercados financeiros não são assim tão díspares e podem ser regidas de acordo com um único chavão: stick to the plan (age de acordo com o plano).

Novas formas de investimento privado

Com mais tempo para passar em casa e menos atividades não-virtuais disponíveis, os cidadãos de todo o mundo renderam-se ao mundo dos mercados financeiros e… do poker. O advento do retail trader (o cidadão individual que procura investir na bolsa por meios próprios) já levou a fenómenos culturais como o escândalo da GameStop, o aparecimento de um novo mercado de objetos virtuais únicos designados como NFTs, ou a contínua valorização de várias moedas virtuais.
Simultaneamente, milhares de jovens jogadores (entre eles muitos portugueses) renderam-se aos encantos do poker online, seduzidos por uma cada vez maior comunidade de jogadores ativos e por sites mais seguros, de maior qualidade, e com prémios mais apetecíveis.

Mas afinal, o que é que isto tem a ver com economia?

Segundo Aaron Brown, tudo. Um antigo investidor profissional que chegou a trabalhar para o banco Morgan Stanley, Brown estudou matemática aplicada e finanças na universidade. Sempre que não estava a investir nos mercados, Brown dedicava-se ao poker. Mais do que um hobbie, o jogo de cartas levou a que o economista norte-americano desenhasse uma original estratégia de investimento. Uma estratégia que partilhou com o mundo em 2007, ano em que editou o livro The Poker Face of Wall Street.
Os ensinamentos de Brown chegaram, mais recentemente, à coluna de análise financeira do conceituado jornal The Economist. As suas teses mais fascinantes estão relacionadas com a noção de que, tal como acontece num jogo de poker, é possível fazer elações estatísticas e probabilísticas acerca de qualquer investimento financeiro.
Mas a sua principal recomendação relaciona-se com um chavão que Brown batizou de “regra de ouro:” a ideia de que, seja no poker ou nos mercados financeiros, o sucesso pode ser moldado de acordo com um método fixo. O único senão? Nunca nos devemos desviar deste método, mesmo que as coisas estejam a correr menos bem, seja nos mercados ou na mesa de jogo.

Investir para lá das emoções

Um método 100% eficaz para investir nos mercados não existe. A regra de ouro de Brown não é excepção. O autor e investidor recomenda que cada pessoa desenhe o seu próprio método para investir ou jogar poker, de acordo com a sua personalidade, objetivos, e nível de exposição ao risco desejado. Mas o conselho chave do economista norte-americano centra-se na ideia de consistência: mais importante do que o plano em si é a ideia de seguir sempre o plano, independentemente do que possa acontecer.
A noção de Brown faz sentido quando analisámos a maneira como o poker e os mercados financeiros funcionam. Ambos prometem uma recompensa mediante uma determinada dose de risco, ambos assentam numa base essencialmente probabilística, e ambos excluem previsões exatas.
Do mesmo modo que uma tragédia inesperada ou crise de confiança pode abalar os mercados da noite para o dia, uma carta sortuda pode mudar o desfecho de um jogo de poker de um momento para o outro. Em suma, a economia, tal como os jogos de sorte e azar, está levemente assente na irracionalidade. E é aí que entra a ideia de consistência de Brown: manter sempre a lógica e a serenidade, mesmo perante o inefável caos.

O coração pelo cérebro

A “regra de ouro” de Brown pode parecer demasiado simples, mas funciona. A maior parte dos erros cometidos por investidores acontece em momentos de grande pressão ou exposição emocional. Alguns vêem-se livre das suas ações no momento em que estas desvalorizam, sem pensar no seu investimento a longo-prazo. Outros reagem de forma impulsiva a tendências de mercado e acabam por gastar demasiado dinheiro em negócios que podem ser sobrevalorizados. Ao assumir um método pré-definido de investimento, os economistas podem mitigar os danos exercidos pelas suas próprias emoções, e assentar as suas decisões numa base realmente lógica e racional.
No poker, um método semelhante é usado por jogadores profissionais que decidem à partida quais são as mãos que querem jogar. A decisão pode resultar em algumas boas oportunidades perdidas e em alguns falhanços crassos. No entanto, ajudam a reduzir de forma drástica a exposição destes jogadores ao risco. Contribuem, além disso, para anular alguma da ansiedade que possa estar envolvida em processos urgentes de tomada de decisão.