2021 assinala o 150.º aniversário das Conferências do Casino

As históricas Conferências do Casino realizaram-se há 150 anos atrás, entre 22 de Março e 26 de Junho de 1871. O evento reuniu alguns dos mais ilustres intelectuais da Geração de 70 e foi responsável por introduzir os cidadãos portugueses a vários conceitos-chave da filosofia europeia da época.
Ao longo dos anos, as referências históricas às Conferências do Casino foram-se dissipando. No entanto, é importante recordar os seus temas centrais e tentar perceber até que ponto estes influenciaram o desenvolvimento de uma linha de pensamento modernista em Portugal. Nos dias da monarquia portuguesa do século 19, as Conferências do Casino foram um dos poucos eventos culturais que procuraram desafiar a autoridade do Rei e introduzir o povo a novas ideias de vanguarda.

A origem do nome

Hoje em dia, a maior parte dos portugueses joga online, através do computador ou do telemóvel. No ano passado, por exemplo 888 Casino contribuíram para que mais de 670 mil utilizadores ativos fizessem apostas e jogassem através da Internet. Mas há mais de 150 anos atrás, quando a sociedade tecnológica contemporânea ainda não era senão uma fantasia de ficção científica, a cultura de jogo já fazia parte da sociedade portuguesa. De resto, o casino desempenhava um papel cultural que extrapolava os domínios do jogo. Embora se jogasse (e muito) nos casinos portugueses do século 19, estes também serviam de sala de espetáculos, centro cultural, ou casa do povo.
Foi precisamente numa sala alugada de um casino de Lisboa que se realizou a primeira sessão das históricas Conferências do Casino. Os intelectuais por detrás da iniciativa tinham sido inspirados pela polémica da Questão Coimbrã, que lançou dúvida na comunidade académica e procurou provocar uma revolução estética, filosófica e espiritual.
A Questão Coimbrã criticava os princípios do Romantismo, um movimento artístico tido como ultrapassado e conservador, que – nas palavras de Antero de Quental – ia contra todos os ideais do “bom senso” e do “bom gosto.”
As Conferências do Casino foram lideradas pelos principais pensadores da Geração de 70, um grupo de jovens de grande inteligência que mudou para sempre a forma como se pensa arte, ciência, ou filosofia em Portugal.

Do que se falava nas Conferências

Como todos os grandes movimentos intelectuais do século 19, as Conferências do Casino foram precedidas com um manifesto. O manifesto foi assinado por pensadores ilustres como Teófilo Braga, Eça de Queirós, Antero de Quental, ou Augusto Fuschini. Os seus princípios eram explícitos: discutir de forma séria as chamadas “ideias do século”, que integravam uma nova linha de pensamento conhecida como positivismo. Pierre-Joseph Proudhon, tido como o pai do anarquismo, foi um dos escritores europeus em destaque nas Conferências do Casino.
Após uma sessão inicial que procurou resumir o “espírito das Conferências”, discutiram-se em Lisboa as causas da decadência dos povos peninsulares. Numa sessão liderada pelo escritor Antero de Quental, a Geração de 70 teorizou acerca dos vários motivos que tinham levado a que Portugal e Espanha se encontrassem numa situação socioeconómica tão debilitada na segunda metade do século 19. Os temas da discussão foram editados em livro, precisamente por Antero de Quental, e criticavam não só a religiosidade excessiva dos povos ibéricos como a sua empobrecida economia agrícola.
As sessões seguintes exploraram as temáticas da literatura (em que o Romantismo foi mais uma vez criticado) e da educação. No entanto, as Conferências do Casino foram interrompidas de forma brusca no Verão de 1871, numa altura em que já existiam outras cinco sessões agendadas. O motivo? A intervenção do estado monárquico português, que optou por censurar as polémicas tertúlias da Geração de 70.

Ideias modernas e “perigosas”

O Portugal do século 19 era ainda um país condicionado pelo conservadorismo, onde uma grande percentagem da população não sabia ler nem escrever. As Conferências do Casino foram por isso interpretadas como ataques diretos ao Catolicismo português e à monarquia. Ideias associadas ao socialismo ou à democracia eram extremamente polémicas e tidas como “perigosas.” Ainda que as Conferências fossem fundamentalmente um espaço de debate, as convicções modernas da Geração de 70 eram demasiado novas para o Portugal do século 19.

Um legado inultrapassável

As Conferências do Casino foram interrompidas a meio, mas a sua influência resistiu muito para lá do Verão de 1871. A censura da monarquia levou a uma onde de protestos e fez correr muita tinta nos jornais. No meio académico, os jovens portugueses passaram a ter acesso às ideias de pensadores até então desconhecidos, que incluem nomes tão influentes quanto Karl Marx, Charles Darwin, ou H. A. Taine. Anos mais tarde, o escritor Eça de Queirós descreveu as Conferências como “a primeira vez que a revolução tinha em Portugal a sua tribuna.”
Antes da Geração de 70, o debate de novas ideias ainda era feito de forma tímida e sigilosa. As Conferências do Casino vieram mudar para sempre o paradigma: 150 anos depois da sua realização, devemos recordar a Geração de 70 pela sua honestidade intelectual, coragem em arriscar, e vontade de criar uma sociedade portuguesa moderna e progressista.